microESCRITORES - O MAR
Considerando a História de
Portugal, podemos afirmar que existe uma "profunda influência do Mar na
Língua, na Literatura e na Cultura portuguesas. Costeiro ou oceânico, o Mar faz
parte do nosso devir histórico, está-nos no sangue. É um dos traços da nossa idiossincrasia
como povo de vocação atlântica ou marítima. Por isso, numa das suas últimas
intervenções públicas, Vergílio Ferreira fez esta bela afirmação: Uma língua é
o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e
sentir. Da minha língua vê-se o mar." (J. Cândido Martins - Universidade
Católica Portuguesa – Braga).
Esta "ligação de Portugal ao mar ganhou maior relevância durante a época dos Descobrimentos e marcou decisivamente o início do processo de globalização"
(http://www.dgpm.mam.gov.pt/Documents/ENM.pdf).
Esta "ligação de Portugal ao mar ganhou maior relevância durante a época dos Descobrimentos e marcou decisivamente o início do processo de globalização"
(http://www.dgpm.mam.gov.pt/Documents/ENM.pdf).
Proponho-vos que redijam um TEXTO
INFORMATIVO-EXPOSITIVO sobre o mar e sua importância para Portugal e para os
Portugueses, reflexos na sua História, literatura e cultura.
À semelhança do que aconteceu no 1º período, também este texto será redigido pelo grupo-turma, parcelarmente.
À semelhança do que aconteceu no 1º período, também este texto será redigido pelo grupo-turma, parcelarmente.
Acedam ao link, que vos dá acesso
a excertos de textos de várias fontes com questões que vos são colocadas e às
quais devem responder.
Essas questões constituem o
DESENVOLVIMENTO do texto solicitado.
Considerem a afirmação que publiquei como a INTRODUÇÃO do texto.
É muito importante que relembrem a estrutura deste tipo de texto, acedendo ao link do blogue: http://caminhosdeleituraeaprendizagem.blogspot.pt/ (publicação de 4 de dezembro de 2015) ou à página 29 do caderno Chegar a bom porto..., que acompanha o vosso manual.
Considerem a afirmação que publiquei como a INTRODUÇÃO do texto.
É muito importante que relembrem a estrutura deste tipo de texto, acedendo ao link do blogue: http://caminhosdeleituraeaprendizagem.blogspot.pt/ (publicação de 4 de dezembro de 2015) ou à página 29 do caderno Chegar a bom porto..., que acompanha o vosso manual.
EXCERTO 1
O território terrestre de
Portugal está confinado à periferia ocidental da Europa, cobrindo uma área
aproximadamente com 89.000 km2, e ao espaço insular Atlântico, ultra periférico
e pouco extenso, correspondente aos arquipélagos da Madeira e dos Açores, com
cerca de 3.000 km2
Considerando apenas a dimensão e as características do seu território terrestre, Portugal é um país com uma dimensão relativamente pequena, parco em recursos naturais e afastado do centro da Europa. Porém, quando considerada a sua dimensão marítima, Portugal é um país imenso e um dos grandes países marítimos do mundo, com um acrescido potencial geoestratégico, geopolítico e económico.
Considerando apenas a dimensão e as características do seu território terrestre, Portugal é um país com uma dimensão relativamente pequena, parco em recursos naturais e afastado do centro da Europa. Porém, quando considerada a sua dimensão marítima, Portugal é um país imenso e um dos grandes países marítimos do mundo, com um acrescido potencial geoestratégico, geopolítico e económico.
A esta imensa dimensão marítima
correspondem grandes desafios mas sobretudo oportunidades sem precedentes para
Portugal.
Quais os limites do território
terrestre de Portugal?
O território terrestre e marítimo
português apresentam diferenças de dimensão e potencial. Comenta. – BEATRIZ
Portugal possui uma geografia e
um ordenamento territorial predominantemente litorais, encontrando-se todos os
seus centros de decisão voltados para o mar. Por outro lado, Lisboa é a única
capital Atlântica do espaço europeu e os arquipélagos dos Açores e da Madeira
estendem a UE para o interior do espaço Atlântico. Em resultado, Portugal, como
um todo, define uma charneira nas ligações intercontinentais e com os Estados
europeus não costeiros. No Mar de Portugal, à geografia e à dimensão, junta-se
a identidade marítima de um povo que ambiciona, novamente, Portugal no mar.
Quais as características que
tornam o território de Portugal único e fazem do espaço do Atlântico Norte que
é português, o Mar-Portugal, um território de referência? - CATARINA GOMES
A identidade marítima
O Mar tem sido um elemento
marcante na História de Portugal. A ligação de Portugal ao mar ganhou maior
relevância durante a época dos Descobrimentos e marcou decisivamente o início
do processo de globalização.
Em que contexto histórico se
desenvolveu e nasceu a relação dos Portugueses com o mar? - RAFAEL
As trocas comerciais, culturais,
científicas e tecnológicas daí resultantes promoveram o grande desenvolvimento
do nosso país e marcaram definitivamente os processos de transmissão de
conhecimento e de interação entre os povos. Foi no quadro desse contexto
histórico que se desenvolveu um país com um caráter fortemente marítimo,
expresso em valores históricos e culturais que, no seu todo, nos definem e que
sublinham uma relação fortemente afetiva dos portugueses com o mar. Daí
Portugal ser um dos Estados subscritores da Convenção sobre o Património
Cultural Subaquático da UNESCO, de 2001, reconhecendo o seu papel de relevo na
maritimidade mundial.
Em que medida esse contexto
histórico contribuiu para o desenvolvimento de Portugal e criação de valores
históricos e culturais? - CATARINA VERÍSSIMO
A evolução política e social,
especialmente durante o último quartel do século XX com a integração na UE,
determinou uma orientação do país para o espaço Europeu e um afastamento
gradual da sua vocação Atlântica.
Com a execução da Estratégia
Nacional para o Mar 2013 - 2020, Portugal quer voltar a assumir-se como um país
marítimo por excelência, que vive com o mar, que traz o mar à Europa, e que
volta a Europa para o mar.
Quando e em que contexto aconteceu
um afastamento e reaproximação de Portugal do mar? - FRANCISCO
Portugal é a face atlântica da Europa e a ligação europeia aos mares profundos. Deve, assim, assumir a iniciativa, liderando os processos europeus e internacionais relativos à governação marítima, visando fomentar a economia, e valorizar e preservar aquele que é o seu maior património natural.
Portugal é a face atlântica da Europa e a ligação europeia aos mares profundos. Deve, assim, assumir a iniciativa, liderando os processos europeus e internacionais relativos à governação marítima, visando fomentar a economia, e valorizar e preservar aquele que é o seu maior património natural.
Nesse sentido, é necessário
recriar uma identidade marítima, moderna, que não renegue os valores
tradicionais, mas que esteja virada para o futuro e potencie um novo espírito
das descobertas, orientado para a criatividade na conceção, empreendedorismo na
preparação e pro-atividade na ação, concretizando as oportunidades que o
Mar-Portugal oferece.
Estas são as múltiplas dimensões do território de referência Mar-Portugal. No seu conjunto, definem o código genético do novo Portugal Marítimo: um país de natureza ultraprofunda, com vasto potencial em recursos naturais, um património natural ímpar, e uma enorme centralidade geoestratégica que é, afinal, um motor de afirmação internacional. (http://www.dgpm.mam.gov.pt/Documents/ENM.pdf)
Estas são as múltiplas dimensões do território de referência Mar-Portugal. No seu conjunto, definem o código genético do novo Portugal Marítimo: um país de natureza ultraprofunda, com vasto potencial em recursos naturais, um património natural ímpar, e uma enorme centralidade geoestratégica que é, afinal, um motor de afirmação internacional. (http://www.dgpm.mam.gov.pt/Documents/ENM.pdf)
Em que consiste a nova identidade
marítima portuguesa? - FILIPA
EXCERTO 2
Portugal, um pequeno país da
periferia da Europa, pobre e com uma população de apenas um milhão de
habitantes, decidiu conquistar a 21 de agosto de 1415 a estratégica cidade
portuária de Ceuta, situada no reino de Fez, no Magrebe. E iniciou um processo
de expansão territorial, marítima, económica, política, militar e religiosa que
o levou a afirmar-se como potência mundial e a controlar o comércio global
durante mais de 100 anos, através da criação de um império marítimo em rede nos
oceanos Atlântico, Índico e Pacífico. [...]
Porque é que podemos dizer que a
globalização nasceu com a conquista da cidade de Ceuta? - PATRÍCIA
As lições dos Descobrimentos
No seu livro “As Lições dos
Descobrimentos” (Centro Atlântico, 2013), Jorge Nascimento Rodrigues
(jornalista do Expresso) e Tessaleno Devezas (professor da Universidade da
Beira Interior) defendem precisamente que os portugueses do século XXI podem
basear-se nos dez pontos fortes e diferenciadores dessa época – a que chamam a
Matriz das Descobertas – “para traçarem o seu caminho profissional e coletivo”.
Esses pontos, “uma espécie de ADN
do ser português”, são: o intento estratégico, a vocação universalista, o
comprometimento científico, a gestão do conhecimento, o olhar para “fora da
caixa” (out of the box) de modo a ser original e a surpreender, o domínio da
informação assimétrica (deter informação superior aos rivais), o incrementalismo
(tentativa/erro e correção pragmática), o espírito crítico, a “manha”
geoestratégica e o improviso organizacional, isto é, o famoso “desenrascanço”,
que hoje pode ser uma vantagem comparativa perante uma economia global em
permanente mudança. [...]
O que é a Matriz dos
Descobrimentos?-DANIELA
EXCERTO 3
Portugal, uma nação marítima
A História portuguesa pode
resumir-se a uma série de esforços para o aproveitamento das possibilidades
atlânticas do território. (Jaime Cortesão)
A globalização e o mar
A globalização é o fenómeno de
maior influência na Humanidade neste princípio de século XXI. Dela decorre a
permanente multiplicação das relações internacionais, que originam um sistema
político, económico, social e militar interdependente, caracterizado pela troca
crescente de bens e informações. É característica determinante deste sistema, o
facto de a economia mundial assentar no livre tráfego, particularmente no
efetuado por via marítima, que é responsável por cerca de 90% do comércio
mundial. Por isso, a valia da posição estratégica ocupada por Portugal,
traduz-se, entre outros aspetos, no facto de cerca de 53% do comércio externo
da UE passar em águas jurisdicionais portuguesas. Além disso, cerca de 60% de
todo o comércio externo português ocorre por via marítima e cerca de 70% das
importações nacionais usa a mesma via, incluindo a totalidade do petróleo e
quase 2/3 do gás natural que consumimos.
Nestas circunstâncias, a
estabilidade global e portuguesa dependem largamente da segurança marítima.
Portugal encontra-se numa
situação estratégica privilegiada no que respeita à globalização. Explica. -
MIGUEL
Porém, as ameaças diretas ao uso
do mar e as que do mar tiram partido, têm-se multiplicado e apresentam-se de
diferentes formas, entre as quais o terrorismo, a pirataria, a proliferação de
armamento, o narcotráfico, o tráfico de seres humanos, a imigração ilegal, a
depredação de recursos vivos e não vivos e a poluição do mar.
Quais as ameaças que afetam o
mar?- BRUNA
Todas estas ameaças obrigam a uma
atenção redobrada e a uma atuação constante e proativa de Portugal, no sentido
de defender os interesses nacionais e de contribuir para a estabilidade global.
Na ausência de uma autoridade supranacional que garanta a segurança marítima, esta resulta dos esforços de cada país, por si só ou no âmbito das ações promovidas por organizações internacionais.
Na ausência de uma autoridade supranacional que garanta a segurança marítima, esta resulta dos esforços de cada país, por si só ou no âmbito das ações promovidas por organizações internacionais.
Qual a atuação dos países face a
essas ameaças?-JOÃO
Importância do mar para Portugal
11% do Produto Interno Bruto
(PIB) 12% do emprego 17% dos impostos indiretos 90% das receitas de turismo
Fontes: 1 - Universidade Católica
Portuguesa, 2004 2 – Instituto Nacional de Estatística, 2004 [...]
Traduz em percentagens a
importância do mar para Portugal. - RAFAEL
EXCERTO 4
O Mar, as Descobertas e a
Literatura Portuguesa
O Mar descoberto pelos poetas
A literatura e cultura
portuguesas estão salpicadas de Mar, cheiram a maresia. Desde o princípio, o
Mar foi a nossa paisagem quotidiana, impregnando profundamente a psicologia, as
tradições, a literatura, a arte e até a gastronomia portuguesas.
A inspiração marítima é tão antiga como a nossa literatura. Curiosamente, foram os poetas trovadorescos e palacianos (sécs. XII a XIV), que descobriram o Mar, bem antes das Descobertas quinhentistas. Com efeito, já nos alvores da nacionalidade o apelo do Mar se fazia sentir no lirismo amoroso galaico-português, com suas barcarolas ou marinhas, inspiradas na temática marítima. [...]
A inspiração marítima é tão antiga como a nossa literatura. Curiosamente, foram os poetas trovadorescos e palacianos (sécs. XII a XIV), que descobriram o Mar, bem antes das Descobertas quinhentistas. Com efeito, já nos alvores da nacionalidade o apelo do Mar se fazia sentir no lirismo amoroso galaico-português, com suas barcarolas ou marinhas, inspiradas na temática marítima. [...]
Não é ainda o Mar largo e
grandioso, descrito por Camões. É apenas um Mar que se admira e teme: O mar dá
muit', crede que non/ se pod'o mundo sen el governar,/ e pode muit', e á tal
coraçon/ que o non pode ren apoderar" (Paay Gomes Charinho).
À imagem do futuro Velho do Restelo, já nessa altura poetas havia que amaldiçoavam o Mar e o dano que ele lhe causava: Quand'eu vejo as ondas/ e as muit' altas ribas,/ logo me veên ondas/ ao cor pola velida./ Maldito seja o mare,/ Que me fez tanto male! (Rui Fernandes). Se uns condenavam o Mar, outros havia que cantavam as barcas novas acabadas de fazer para deitar às águas: En Lixboa, sobre la mar,/ barcas novas mandei lear;/ Ai mha senhor velida!// Barcas novas mandei lear/ e no mar as mandei deitar;/ Ai mha senhor celida! (João Zorro).
Em suma, nascemos a ver, ouvir e sentir o Mar. Desde os alvores da nacionalidade, e terminada a conquista do solo, o Mar era o nosso grande chamamento, a nossa vocação essencial. Chegara o momento de partir e desbravar o Mar Desconhecido, torná-lo no nosso mar arável. Com essa partida, mudaríamos o rumo da nossa História e transformaríamos a face do mundo até então conhecido. Era a hora de ir para o cais e encetar a grande Viagem da Expansão.
À imagem do futuro Velho do Restelo, já nessa altura poetas havia que amaldiçoavam o Mar e o dano que ele lhe causava: Quand'eu vejo as ondas/ e as muit' altas ribas,/ logo me veên ondas/ ao cor pola velida./ Maldito seja o mare,/ Que me fez tanto male! (Rui Fernandes). Se uns condenavam o Mar, outros havia que cantavam as barcas novas acabadas de fazer para deitar às águas: En Lixboa, sobre la mar,/ barcas novas mandei lear;/ Ai mha senhor velida!// Barcas novas mandei lear/ e no mar as mandei deitar;/ Ai mha senhor celida! (João Zorro).
Em suma, nascemos a ver, ouvir e sentir o Mar. Desde os alvores da nacionalidade, e terminada a conquista do solo, o Mar era o nosso grande chamamento, a nossa vocação essencial. Chegara o momento de partir e desbravar o Mar Desconhecido, torná-lo no nosso mar arável. Com essa partida, mudaríamos o rumo da nossa História e transformaríamos a face do mundo até então conhecido. Era a hora de ir para o cais e encetar a grande Viagem da Expansão.
O mar e a literatura portuguesa
estão desde sempre ligados. Comenta. - DINA
O Mar e a Viagem
Consolidada virilmente a
conquista da Terra pátria e voltada de costas para Castela, a nação portuguesa
via no Mar a sua porta natural — Onde a terra acaba e o mar começa. Chegara a
hora de um país de marinheiros desbravar o lendário Mar Tenebroso, a partir da
ocidental praia lusitana. Portugal lançava-se, assim, na maior aventura
coletiva da sua História: a descoberta de novas terras e do grande oceano por
achar.
A política expansionista
Começámos por adquirir longa
experiência na navegação costeira. Em Lisboa, desde muito cedo, a construção de
barcos tornou célebre a Ribeira das Naus, como já aparece referido nas crónicas
de Fernão Lopes. Rodeámo-nos dos melhores especialistas nas ciências náuticas
(árabes, genoveses ou catalães). O grande impulso vinha da figura emblemática e
predestinada, o Infante D. Henrique, com a sua mítica Escola de Sagres.
Devidamente preparados, encetámos a grande e sonhada aventura: a progressiva descoberta da longa costa africana e o desvendar do largo oceano Atlântico. Os Descobrimentos eram o cometimento grande e grave de todo um povo, o peito ilustre lusitano. Contudo, a grande empresa era descobrir o desejado caminho marítimo para a Índia, dobrando o Cabo das Tormentas, símbolo mítico dos vedados términos e alegoria de todos os medos e perdições.
Antes da concretização da grande viagem, assistimos a uma paulatina e persistente descoberta de toda a longa costa africana. Entre as figuras de pioneiros navegadores, heroicos executantes da expansão ultramarina, salientam-se os nomes de Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Gil Eanes ou Pedro Álvares Cabral. Dentro desta política expansionista, mas também de sigilo, procedemos à partilha do mundo conhecido e desconhecido no célebre Tratado de Tordesilhas.
A partir da viagem inaugural de Vasco da Gama, Portugal começa a enviar regularmente armadas para o Oriente, conhecida como a rota da carreira da Índia. Ao mesmo tempo, vai consolidando o seu poderio através do povoamento, da construção de praças militares e de feitorias comerciais, das ilhas às costas africanas e ao longínquo Oriente.
A mais arriscada mas também a mais desejada viagem da Expansão portuguesa, foi a pioneira descoberta do caminho marítimo para a verdadeira Índia. Em 1498, completam-se agora 500 anos, Vasco da Gama chegava à Índia, à frente de uma heroica armada, ao serviço de D. Manuel. Abria, assim, uma nova rota que iria mudar as relações comercias e culturais do mundo conhecido. Concretizava-se, deste modo, um sonho e uma vocação: chegar por via marítima às distantes e exóticas terras orientais.
Devidamente preparados, encetámos a grande e sonhada aventura: a progressiva descoberta da longa costa africana e o desvendar do largo oceano Atlântico. Os Descobrimentos eram o cometimento grande e grave de todo um povo, o peito ilustre lusitano. Contudo, a grande empresa era descobrir o desejado caminho marítimo para a Índia, dobrando o Cabo das Tormentas, símbolo mítico dos vedados términos e alegoria de todos os medos e perdições.
Antes da concretização da grande viagem, assistimos a uma paulatina e persistente descoberta de toda a longa costa africana. Entre as figuras de pioneiros navegadores, heroicos executantes da expansão ultramarina, salientam-se os nomes de Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Gil Eanes ou Pedro Álvares Cabral. Dentro desta política expansionista, mas também de sigilo, procedemos à partilha do mundo conhecido e desconhecido no célebre Tratado de Tordesilhas.
A partir da viagem inaugural de Vasco da Gama, Portugal começa a enviar regularmente armadas para o Oriente, conhecida como a rota da carreira da Índia. Ao mesmo tempo, vai consolidando o seu poderio através do povoamento, da construção de praças militares e de feitorias comerciais, das ilhas às costas africanas e ao longínquo Oriente.
A mais arriscada mas também a mais desejada viagem da Expansão portuguesa, foi a pioneira descoberta do caminho marítimo para a verdadeira Índia. Em 1498, completam-se agora 500 anos, Vasco da Gama chegava à Índia, à frente de uma heroica armada, ao serviço de D. Manuel. Abria, assim, uma nova rota que iria mudar as relações comercias e culturais do mundo conhecido. Concretizava-se, deste modo, um sonho e uma vocação: chegar por via marítima às distantes e exóticas terras orientais.
A política expansionista
portuguesa começou com a aquisição de uma longa experiência na navegação
costeira culminando com o momento fulcral da descoberta do caminho marítimo
para a Índia. Desenvolve - PEDRO
A grande viagem épica
Ainda hoje podemos reviver o
quotidiano de bordo da carreira da Índia, através da descritiva relação de
Álvaro Velho, mas também de outros importantes roteiros, ou ainda de detalhadas
cartas, redigidas pelos missionários aos seus superiores.
É muito interessante recordar,
hoje, com que indescritíveis dificuldades era feita essa longa e penosa viagem
para a Índia. Imaginemos as dramáticas cenas da despedida, com sinos repicando,
depois da missa e da procissão até à praia do Restelo. Seguia-se o embarque de
cerca de cinco centenas de tripulantes e passageiros em cada nau, ancoradas na
foz do Tejo, devidamente apetrechadas e engalanadas com a Cruz de Cristo nas
velas desfraldadas. Depois, à medida que a armada se afastava, era o adeus
definitivo à terra pátria e o início da viagem para o perigo e o desconhecido.
Em seguida, iniciava-se uma dura
e arriscadíssima viagem. Tendo partido de Lisboa pela Primavera, e conforme as
condições atmosféricas, só chegavam a Goa lá para o fim do ano. As dificuldades
ou provações eram incontáveis: fome, sede, frio, calor, desconforto,
promiscuidade, doenças, intempéries, ataques de piratas, naufrágios, etc..
De facto, os navegantes enfrentavam ora o tórrido calor equatorial, ora o gélido frio do sul, chegando a nevar nas embarcações. Noutros momentos, eram surpreendidos por atemorizadores fenómenos naturais ou perigosas coisas do mar, como o fogo de Santelmo ou a tromba marítima; ou ainda por terríveis tempestades e prolongadas calmarias equatoriais: Sofrendo tempestades e ondas cruas,/ Vencendo os torpes frios no regaço/ Do Sul, e regiões de abrigo nuas,/ Engolindo o corrupto mantimento/ Temperado com um árduo sofrimento.
Como descreve Camões, que também viveu essa viagem, um dos grandes problemas era a comida e a bebida, pois durante a viagem os racionados géneros alimentares degradavam-se, ou escasseava a preciosa água potável. Para minorar estas privações, as naus aportavam em alguns lugares para fazer a aguada. Como se não bastasse, apareciam as epidemias e o temível mal das gengivas, o escorbuto, a doença crua e feia.
De facto, os navegantes enfrentavam ora o tórrido calor equatorial, ora o gélido frio do sul, chegando a nevar nas embarcações. Noutros momentos, eram surpreendidos por atemorizadores fenómenos naturais ou perigosas coisas do mar, como o fogo de Santelmo ou a tromba marítima; ou ainda por terríveis tempestades e prolongadas calmarias equatoriais: Sofrendo tempestades e ondas cruas,/ Vencendo os torpes frios no regaço/ Do Sul, e regiões de abrigo nuas,/ Engolindo o corrupto mantimento/ Temperado com um árduo sofrimento.
Como descreve Camões, que também viveu essa viagem, um dos grandes problemas era a comida e a bebida, pois durante a viagem os racionados géneros alimentares degradavam-se, ou escasseava a preciosa água potável. Para minorar estas privações, as naus aportavam em alguns lugares para fazer a aguada. Como se não bastasse, apareciam as epidemias e o temível mal das gengivas, o escorbuto, a doença crua e feia.
Como era o quotidiano de bordo da
carreira da Índia?-TOMÁS SANTOS
Além dos atos de culto religioso
quotidiano, para obviar à dureza da vida a bordo e à monotonia dos infindáveis
dias, tinham lugar algumas distrações, como jogos, representações teatrais
(comédias e autos religiosos), e até fingidas corridas de touros.
Que se fazia nas naus para passar
o tempo?-ISABELA
Foi esta heroica Viagem para a
Índia, símbolo maior da nossa aventura marítima, que Camões celebrou n'Os
Lusíadas como o ponto culminante de toda a História portuguesa. Com a
descoberta do caminho marítimo para a Índia, esta gente ousada unia o Atlântico
e o Índico, o Ocidente e o Oriente, a Europa e a Ásia. Ultrapassando medos e
perigos vários, o Homem desmistificava o Mar Tenebroso. Os portugueses
elevavam-se assim à categoria de heróis lendários, dando um passo de gigante na
Expansão ultramarina e abrindo novos mundos ao Mundo.
Qual a importância da viagem
marítima para a Índia para a História portuguesa? - TIAGO
3
O Mar e a Descoberta
Depois de ter calcorreado vários
países e atravessado repetidamente o Atlântico, o novo mundo que os navegantes
lusos ajudaram a conhecer, o P. António Vieira exclamou: os portugueses têm um
berço pequeno para nascer e o mundo inteiro para morrer.
As Descobertas da política expansionista dos portugueses deram, de facto, novos mundos ao mundo. O mítico Mar Tormentoso fora domesticado no heroico Mar Português. E um desconhecido mundo nascia, perante o espanto do homem europeu. Cidadãos do mundo, deve-se aos portugueses a criação do espírito universalista. Comenta.
As Descobertas da política expansionista dos portugueses deram, de facto, novos mundos ao mundo. O mítico Mar Tormentoso fora domesticado no heroico Mar Português. E um desconhecido mundo nascia, perante o espanto do homem europeu. Cidadãos do mundo, deve-se aos portugueses a criação do espírito universalista. Comenta.
Porque se deve aos portugueses a
criação de um espírito universalista?-TOMÁS CUNHA
Novo Mundo
Outro mundo encoberto/ Vimos
então descobrir, poetava Garcia de Resende. Celebrando o triunfo ultramarino,
Gil Vicente escrevia que os reis de Portugal conquistam o Mar do Mundo.
Sulcando os mares temidos e misteriosos, descobrimos, conquistámos, colonizámos
— se mais mundo houvera lá chegara o esforço expansionista português.
Contactámos outras culturas, espantámo-nos com outras paisagens, inteirámo-nos
de outras conceções de vida. Nunca, em tão poucas décadas, uma pequena nação
contribuiu, dum modo tão decisivo, para alterar radicalmente a face do universo
até então conhecido. Pelo seu impacto a vários níveis, os Descobrimentos
inauguram a era moderna da História da Humanidade.
A riquíssima literatura de viagens do período dos Descobrimentos constitui um valioso tesouro, de elevadíssimo interesse humano, literário e etnográfico-cultural. Ela representa o espanto do homem europeu perante o novo mundo descoberto.
Um dos capítulos mais ricos da nossa literatura dos Descobrimentos é constituído pelas coloridas e riquíssimas páginas dos cronistas e viajantes. Para a posteridade, em páginas memoráveis, fixaram os grandes feitos políticos, militares e científicos dos portugueses. Mas também descreveram, admiravelmente, as viagens, as terras, as culturas e os povos contactados. Alguns arriscaram-se a penetrar bem no interior dos territórios descobertos, deixando-nos páginas inesquecíveis de anotações deslumbradas sobre o exotismo dos costumes e tradições desses povos desconhecidos.
A riquíssima literatura de viagens do período dos Descobrimentos constitui um valioso tesouro, de elevadíssimo interesse humano, literário e etnográfico-cultural. Ela representa o espanto do homem europeu perante o novo mundo descoberto.
Um dos capítulos mais ricos da nossa literatura dos Descobrimentos é constituído pelas coloridas e riquíssimas páginas dos cronistas e viajantes. Para a posteridade, em páginas memoráveis, fixaram os grandes feitos políticos, militares e científicos dos portugueses. Mas também descreveram, admiravelmente, as viagens, as terras, as culturas e os povos contactados. Alguns arriscaram-se a penetrar bem no interior dos territórios descobertos, deixando-nos páginas inesquecíveis de anotações deslumbradas sobre o exotismo dos costumes e tradições desses povos desconhecidos.
Um dos grandes documentos é a
famosa Carta de Achamento do Brasil, de Pêro Vaz de Caminha, que acompanhava
Pedro Álvares Cabral na viagem de 1500. Nesta longa carta, o entusiasmado e
descritivo redactor noticia ao rei D. Manuel do descobrimento da Terra da Vera
Cruz. Outra das obras paradigmáticas da descoberta dos novos mundos é a
Peregrinação de Fernão Mendes Pinto: descrição do exotismo, das gentes, das
paisagens, dos costumes, a par da narração de aventureiras deambulações do seu
incansável protagonista, numa incomparável sede de novidade. Por isso Eduardo
Lourenço vê esta obra como o livro do deslumbramento perante o fabuloso e
mítico Oriente.
A riquíssima literatura de
viagens do período dos Descobrimentos representa o espanto do homem europeu
perante o novo mundo descoberto. Comenta. - VERA
Nova Cultura
O saber de experiência feito dos
navegadores portugueses foi proporcionado por repetidas viagens, novas rotas,
explorações terrestres, relação com outros povos e outras terras, outras
línguas e outras religiões, outros climas e outras culturas. O contacto com a
majestade da grande natureza mudou, decisivamente, a face do conhecimento
recebido da autoridade dos antigos (gregos, latinos, Padres da Igreja, etc.),
dando origem a uma nova mentalidade científica. Para os descobridores modernos,
a experiência era, de facto, a madre de todas as coisas na revelação de um novo
mundo.
Originando uma enorme massa de
conhecimento, as Descobertas alargaram decisivamente os horizontes do saber
científico e humanístico do seu tempo. Como escreveu o astrónomo e matemático
quinhentista Pedro Nunes, com a Expansão portuguesa revelamos ao mundo novas
ilhas, novas terras, novos mares, novos povos, e, o que mais é, novo céu e
novas estrelas. Pode-se dizer que os Descobrimentos representam um dos maiores
saltos do conhecimento em toda a história da humanidade.
Disso são representativas as
obras de vários cientistas portugueses, respeitadíssimos na mais alta cultura
do tempo, desde as ciências náuticas (Cosmografia, Astronomia, Cartografia, etc.)
à Matemática ou à Medicina. Algumas proeminentes figuras intelectuais
portugueses eram lidos, traduzidos e prestigiados no mundo culto e académico de
Europa do tempo. Ressaltem-se os nomes de: Damião de Góis, André de Resende, D.
Jerónimo Osório, Frei Heitor Pinto, André de Gouveia, Diogo de Teive. A grande
projeção da cultura humanística e renascentista na época dos Descobrimentos
manifestou-se nos mais diversos domínios — nas Ciências (Pedro Nunes, Duarte
Pacheco Pereira, Garcia da Horta, Tomé Pires); na Historiografia (Gomes Eanes
de Zurara, F. Lopes Castanheda, Diogo do Couto, João de Barros, Gaspar Correia,
etc.); na Literatura (Gil Vicente, Camões, Sá de Miranda, F. Mendes Pinto e
tantos outros).
Originando uma enorme massa de
conhecimento, as Descobertas alargaram decisivamente os horizontes do saber
científico e humanístico do seu tempo. Explica. - EDDIE
Camões celebra, em verso heroico
e eloquente, a descoberta do caminho marítimo para a Índia como o clímax da
História de Portugal e um dos feitos mais altos da Humanidade, justamente no
meio d' Os Lusíadas. O seu poema é, assim, a exaltação máxima da nossa gesta
dos Descobrimentos. Ergue-se como a nossa grande epopeia nacional e o símbolo
maior do esplendor que Portugal alcançou na cultura europeia.
Em suma, o progresso do
conhecimento científico e o florescimento cultural dos sécs. XV e XVI receberam
o inestimável contributo dos Descobrimentos portugueses e da prosperidade
económica então vivida. Numa palavra, a inteligência renascentista e o humanismo
universalista tiveram o indelével cunho português.
Qual a importância da epopeia de
Camões para a exaltação dos Descobrimentos? - PATRÍCIA
5.
O Mar e as Lágrimas
O Mar e as Lágrimas
A Tragédia caminhou lado a lado
com a Epopeia, enobrecendo o esforço das conquistas ultramarinas dos
portugueses. A grandiosa expansão marítima de Portugal pelos quatro continentes
teve um duro preço, quer em termos humanos, quer materiais e financeiros.
A capacidade de arrostar com o perigo e de enfrentar o sofrimento contribuiu decisivamente para nobilitar a gesta heroica dos Descobrimentos portugueses. Como dirá Fernando Pessoa sobre o mar salgado português: Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/ Mas nele é que espelhou o céu.
A capacidade de arrostar com o perigo e de enfrentar o sofrimento contribuiu decisivamente para nobilitar a gesta heroica dos Descobrimentos portugueses. Como dirá Fernando Pessoa sobre o mar salgado português: Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/ Mas nele é que espelhou o céu.
A face dramática da epopeia
A grandiosa gesta das Descobertas
portuguesas arrostava constantemente com o perigo e o com desconhecido.
Navegando em lenho leve, perdido na imensidão do mar irado, misterioso e
temível, o homem enfrentava a morte a cada instante. Isso mesmo sintetizou
Camões, o grande pintor marítimo, que experimentou na pele as agruras da viagem
para a Índia: No mar tanta tormenta e tanto dano,/ Tantas vezes a morte
apercebida.
Já na partida, junto à areia da
praia, o Velho do Restelo lançara um pressagiador grito de condenação da
política expansionista. Dando voz aos mais céticos, para ele, os descobrimentos
eram uma aventura insensata, arriscada, de resultados duvidosos e até contrária
à lei natural: Oh! maldito o primeiro que no mundo/ Nas ondas velas pôs em seco
lenho!/ Dino da eterna pena do profundo/ Se é justa a justa lei que sigo e
tenho!
Bramindo pela voz do gigante
Adamastor — inesquecível prosopopeia do Medo e do Perigo que os lusos
navegantes desafiaram e venceram —, o Mar nos advertira, em negras profecias,
dos grandes perigos e das dolorosas perdas, pela ousadia de desbravarmos os
desconhecidos oceanos. Os seus terríveis vaticínios não amedrontaram Vasco da
Gama. Com estes episódios, mais admiravelmente Camões ressalta o justo prémio
merecido pelo heroico esforço dos portugueses.
Como outras grandes realizações do espírito humano, também a epopeia lusa foi perpassada por muitos suspiros e gritos envoltos em muita quantidade de lágrimas, como disse F. Mendes Pinto. Numa arrojada e inesquecível metáfora, tendo presente a temível carreira da Índia, Diogo do Couto escreveria que se o Oceano, em vez de água, fosse antes uma estrada, estaria toda calçada de ossos dos Portugueses, perdidos em tão perigosa viagem.
Quantos poetas, sobretudo românticos, saudosistas ou místico-nacionalistas, glosaram a imagem de Camões como Poeta do Mar, salvando Os Lusíadas do naufrágio! Camões personifica o génio português do poeta-soldado, que lutou com a pena e com a espada pelo engrandecimento da Pátria. Que é a sua epopeia senão o poema do Mar? Mar espumando oitavas, alto e fundo!/ Lusíadas — poema feito de água! O mesmo poeta, Mário Beirão, fala no Mar de todas as lágrimas, tendo dedicado todo um livro ao tema. Intitulou-o Mar de Cristo, escrevendo: O mar da Praia Ocidental, entoando/ Lusíadas nas horas de negrume.
A Tragédia caminhou lado a lado com a Epopeia, enobrecendo o esforço das conquistas ultramarinas dos portugueses.
Como outras grandes realizações do espírito humano, também a epopeia lusa foi perpassada por muitos suspiros e gritos envoltos em muita quantidade de lágrimas, como disse F. Mendes Pinto. Numa arrojada e inesquecível metáfora, tendo presente a temível carreira da Índia, Diogo do Couto escreveria que se o Oceano, em vez de água, fosse antes uma estrada, estaria toda calçada de ossos dos Portugueses, perdidos em tão perigosa viagem.
Quantos poetas, sobretudo românticos, saudosistas ou místico-nacionalistas, glosaram a imagem de Camões como Poeta do Mar, salvando Os Lusíadas do naufrágio! Camões personifica o génio português do poeta-soldado, que lutou com a pena e com a espada pelo engrandecimento da Pátria. Que é a sua epopeia senão o poema do Mar? Mar espumando oitavas, alto e fundo!/ Lusíadas — poema feito de água! O mesmo poeta, Mário Beirão, fala no Mar de todas as lágrimas, tendo dedicado todo um livro ao tema. Intitulou-o Mar de Cristo, escrevendo: O mar da Praia Ocidental, entoando/ Lusíadas nas horas de negrume.
A Tragédia caminhou lado a lado com a Epopeia, enobrecendo o esforço das conquistas ultramarinas dos portugueses.
A grandiosa expansão marítima de
Portugal pelos quatro continentes teve um duro preço, quer em termos humanos,
quer materiais e financeiros. Comenta. - DANIEL
6.
O Mar e o Reverso
O Mar e o Reverso
A ufania épica e luminosa das
façanhas heroicas dos Descobrimentos portugueses conheceu, como todas as
grandes obras humanas, um triste mas compreensível lado negro. Na insaciável
busca de riquezas e honrarias, a par de inimagináveis gestos de grandeza e
heroísmo, também se cometeram excessos e atrocidades. Esta lenda negra deve ser
interpretada à luz da cultura do tempo e comparada com o procedimento de outras
potências. Não deixa, porém, de constituir o reverso da medalha das nossas
grandezas. Hernâni Cidade chama-lhe as sombras do quadro grandioso da Expansão
ultramarina.
A mítica opulência do Oriente
A grandiosa empresa dos
Descobrimentos absorveu muitas e variadas gentes, desde a classe nobre aos mais
simples soldados, marinheiros e mercadores. A par dos grandes objetivos de
descoberta e conquista, outra atividade dominou: o comércio de produtos nobres
e exóticos, e até de pessoas para o mercado de escravos. As míticas riquezas do
Oriente a todos seduziam e, com elas, a miragem do enriquecimento fácil.
Parafraseando D. João de Castro, muitos portugueses foram para o Oriente, não
para servir o Império, mas apenas para comerciar e enriquecer.
Qual o lado negro, o menos
elogioso, dos Descobrimentos? - MARIANA SILVA
Depois das rotas africanas do
ouro e pedras preciosas, era a longínqua Índia que seduzia os navegadores e
comerciantes — terra onde há minas de ouro e, como se lê numa carta de D.
Manuel, grandes povoações onde se faz trato de especiaria e pedraria. Além das
cobiçadas riquezas minerais, as terras do Oriente eram a grande fonte de
tecidos finos, madeiras raras e, sobretudo, das apreciadas especiarias:
pimenta, canela, cravo, noz moscada, gengibre, etc. Durante décadas, fomos a
inveja do mundo ocidental. A riqueza oriunda das viagens ultramarinas era
visível nos trajes e nos hábitos, na arquitetura ou em manifestações
sumptuárias.
Disso é exemplo a ostentatória embaixada enviada por D. Manuel I ao Papa Leão X, em 1514, chefiada por Tristão da Cunha. Deixou boquiaberta a capital da cristandade perante a grandeza esplendorosa de tal séquito. Entre os sumptuosos e exóticos presentes, desfilaram pelas ruas de Roma as primícias da navegação da Índia: imponentes cavalos persas, carregados de riquezas; feras amansadas; homens orientais com vestes ornadas a ouro e pedras preciosas; e até um elefante branco que, carregando o rico cofre pontifical, borrifou os espectadores e o próprio Papa com água perfumada! Impressionado e reconhecido por tão sumptuosa oferta, Giovanni de Medicis reafirma a Portugal o monopólio de África e do Oriente, entre outros relevantes privilégios políticos e espirituais.
Disso é exemplo a ostentatória embaixada enviada por D. Manuel I ao Papa Leão X, em 1514, chefiada por Tristão da Cunha. Deixou boquiaberta a capital da cristandade perante a grandeza esplendorosa de tal séquito. Entre os sumptuosos e exóticos presentes, desfilaram pelas ruas de Roma as primícias da navegação da Índia: imponentes cavalos persas, carregados de riquezas; feras amansadas; homens orientais com vestes ornadas a ouro e pedras preciosas; e até um elefante branco que, carregando o rico cofre pontifical, borrifou os espectadores e o próprio Papa com água perfumada! Impressionado e reconhecido por tão sumptuosa oferta, Giovanni de Medicis reafirma a Portugal o monopólio de África e do Oriente, entre outros relevantes privilégios políticos e espirituais.
Quais as razões da riqueza da Índia?
– ISABELA
A riqueza da Lisboa quinhentista
fez da capital do Império um vasto campo de vícios. Já os poetas do Cancioneiro
Geral denunciavam a decadência dos costumes, comparando Lisboa a Roma, e a
Índia à Babilónia. As novas riquezas desencadearam novos hábitos, mudaram as
tradicionais necessidades, implicaram profundas transformações sociais.
Denúncia dos fumos da Índia
A própria historiografia do
tempo, que faz a exaltação e apologética dos nobres feitos, não esconde algumas
críticas e denúncias. Castanheda, Gaspar Correira e sobretudo Diogo do Couto
censuram os atos de chatinagem e corrupção. Libelo acusatório, é n'O Soldado
Prático que mais cruamente se condena a ostentação e a violência, a imoralidade
e a corrupção: Já na Índia não há cousa sã; está tudo podre e afistulado. Nas
comédias, satiriza-se a figura-tipo do português fanfarão, enamorado, gabarola
e pelintra. Intoxicado pelos fumos da Índia, é o símbolo da degradação causada
pela embriaguez da riqueza, da desenfreada ambição do lucro e da perda dos
ideais de proselitismo, a caça ao ouro: caça tão real que se caça em Portugal,
lê-se no Cancioneiro Geral.
Depois de ter exaltado a aventura
ultramarina, Gil Vicente aponta, no Auto da Índia, o dedo crítico e satírico às
consequências familiares da ausência dos homens casados, pondo na boca do
viajante regressado a confissão dos trabalhos por que passaram, mas também as
crueldades cometidas: Fomos ao Rio de Meca;/ Pelejámos e roubámos. Também Sá de
Miranda denunciará, numa dura invectiva moralista, a decadência citadina
originada pelos Descobrimentos: além de contrariar o ideal de vida rústica e
violar a Natureza, a Expansão fomentava a cobiça, empobrecia a agricultura e
despovoava o país: Ao cheiro desta canela/ O Reino se despovoa. A própria Peregrinação
de Fernão Mendes Pinto é um grande painel da decadência portuguesa reinante no
Oriente. Tanto o herói como outras personagens são astutos nos seus atos de
pirataria e pilhagem, sem escrúpulos de consciência, e até com o nome de Jesus
na boca e no coração.
Pela voz crítica do Velho do
Restelo, Camões denuncia o reverso das épicas façanhas dos portugueses,
apontando o dedo acusador à fama e à vã cobiça: Dura inquietação d'alma e da
vida,/ Fonte de desamparos e adultérios,/ Sagaz consumidora conhecida/ De
fazendas, de reinos e de impérios! Aliás, é o mesmo Poeta que também não cala o
seu desengano perante as misérias de uma Pátria metida / No gosto da cobiça e
na rudeza / De uma austera, apagada e vil tristeza. Neste aspeto, nenhuma obra
como Os Lusíadas conseguiu ser a expressão mais sintética do claro-escuro que,
simbolicamente, resume a Expansão ultramarina: exaltação heroica e crítica
desalentada. Descontente com os sinais de agonia coletiva da Pátria, que, em
derradeiro arroubo de entusiasmo, exaltou epicamente num canto crepuscular, a
Camões resta-lhe morrer com Portugal, depois do trágico desastre de
Alcácer-Quibir.
Qual o reverso das épicas
façanhas dos portugueses no Oriente?-MARIANA PIRES
7.
O Mar e o Regresso
O Mar e o Regresso
A aventura marítima dos portugueses
teve o seu tempo de preparação, o seu período áureo, mas também a fase de
decadência. Depois da larga odisseia, chega o momento do retorno à casa
lusitana, à Ítaca natal. Cumprida a vocação expansionista, feito e desfeito o
Império ultramarino, é a hora do regresso às areias de Portugal e ao cais da
partida. Neste movimento centrípeto de regresso ou nostos, subsiste um duplo e
contraditório sentimento: de realização duma grandiosa empresa, mas também de
incumprimento do sonho. É a hora de o povo de marinheiros regressar ao
retângulo pátrio, ao jardim da Europa, à beira-mar plantado.
A desagregação do Império
No princípio, na dinastia dos
Borgonha, foram os séculos de formação da nacionalidade, mais voltada para a
Terra. Em seguida, teve lugar a aventura do Mar, de África e da Índia, nos
reinados da casa de Avis. Depois, já com os Braganças, foi a decadência do
império ultramarino, a revalorização do Brasil e a política de alianças
luso-britânicas. Por fim, já no século passado, foi o começo da derrocada do
império português. Vejamos.
Primeiro, em princípios do século, a par da implantação do liberalismo, acontece a alarmante independência do Brasil. Era o princípio da desagregação do Império português. Depois, pela voz pessimista de Antero de Quental, acusa-se a empresa das Descobertas de ter sido uma das causas da nossa endémica decadência, sob a forma de atraso científico e cultural: Há nações para as quais a Epopeia é ao mesmo tempo o epitáfio. No final do séc. XIX, no contexto do humilhante ultimatum inglês, Portugal debate-se com sua impotência para fazer valer pelas armas os territórios do mapa cor-de-rosa. Oliveira Martins perguntará se, perdido definitivamente o sonho do Império, Portugal tem ao menos capacidade política e financeira para se manter como país independente. Perante a vulnerabilidade da nação que, num clamoroso sentimento de finis patriae, se afunda no cais de outrora, chega a defender-se a solução iberista. Por fim, já em pleno século XX, ocorre a autonomia política de outras conquistas. Começa com a perda dos longínquos territórios indianos. E termina com a dolorosa e sangrenta independência colónias africanas, que a metrópole persistia em manter a todo o custo e contra a maré dos tempos. É, definitivamente, o fim do sonho de um Portugal multicontinental, cujas províncias iam do Minho a Timor.
Primeiro, em princípios do século, a par da implantação do liberalismo, acontece a alarmante independência do Brasil. Era o princípio da desagregação do Império português. Depois, pela voz pessimista de Antero de Quental, acusa-se a empresa das Descobertas de ter sido uma das causas da nossa endémica decadência, sob a forma de atraso científico e cultural: Há nações para as quais a Epopeia é ao mesmo tempo o epitáfio. No final do séc. XIX, no contexto do humilhante ultimatum inglês, Portugal debate-se com sua impotência para fazer valer pelas armas os territórios do mapa cor-de-rosa. Oliveira Martins perguntará se, perdido definitivamente o sonho do Império, Portugal tem ao menos capacidade política e financeira para se manter como país independente. Perante a vulnerabilidade da nação que, num clamoroso sentimento de finis patriae, se afunda no cais de outrora, chega a defender-se a solução iberista. Por fim, já em pleno século XX, ocorre a autonomia política de outras conquistas. Começa com a perda dos longínquos territórios indianos. E termina com a dolorosa e sangrenta independência colónias africanas, que a metrópole persistia em manter a todo o custo e contra a maré dos tempos. É, definitivamente, o fim do sonho de um Portugal multicontinental, cujas províncias iam do Minho a Timor.
Na sua singular visão da História
de Portugal, Oliveira Martins afirmava que ela estava simbolizada em três
grandes monumentos: a Batalha, imagem do Portugal medievo e guerreiro,
consolidador da sua independência; os Jerónimos, celebração do Portugal
ultramarino e renascentista, na antiga praia da partida e chegada das naus; e
Mafra, magnífica representação do Portugal da decadência faustosa do império.
A aventura marítima dos
portugueses teve o seu tempo de preparação, o seu período áureo, mas também a
fase de decadência. Comenta.- RUI
A nostalgia do regresso
O regresso de um povo de
navegantes e conquistadores ao porto de partida, lembra-me o sonho da Utopia,
de Thomas More. O célebre escritor escolhe justamente um marinheiro português
(Rafael Hitlodeu), que navegara pelo Novo Mundo, para comunicar a existência de
uma ilha encantada, onde os homens viveriam em harmonia feliz. Depois de já ter
percorrido mares e continentes, também ele regressa à quietude do lar. É o
símbolo do homem que não se contentou com a pequenez da terra onde vivia,
lançando-se na aventura das descobertas, com o deslumbramento e a embriaguez do
desconhecido. Enfim, o protótipo de um povo de navegantes, o homem da utopia,
tinha de ser português!
Viajando por Portugal, também
Miguel de Unamuno pintou a sugestiva imagem de um país provinciano e
meditabundo na figura de uma formosa camponesa. Sentada à beira-mar, de costas
para a Europa, com os pés descalços na espuma das ondas, olha fixamente o
pôr-do-sol no Mar — Mar que, para Portugal, foi teatro das suas façanhas, berço
e sepulcro das suas glórias.
Do desbravado mar português, fica-nos a nostalgia. Portugal é, de novo, confinado à sua dimensão terrestre. Este regresso a casa ou ao cais, é precisamente um dos simbólicos temas que tem inspirado muita da atual Literatura portuguesa: depois do passado marítimo e colonial, Portugal interroga-se sobre o destino ou rumo como navio-nação.
Da realização de Expo'98, [no] Ano Internacional dos Oceanos e da comemoração dos 500 anos dos Descobrimentos, creio que ficou um saudável sentimento de autoestima, perante o nosso passado histórico. É tempo de nos libertarmos de sentimentos derrotistas e fatalistas. É tempo de acabarmos com despropositados complexos de inferioridade. É tempo de encarar o futuro com a confiança das grandes realizações do passado. Há 500 anos, estávamos envolvidos num empolgante sonho de expansão. Embarcámos num projeto verdadeiramente galvanizador. E hoje, que ideia ou projeto nos move? Que utopia ou sonho nos mobiliza como povo?
Desta série de sete brevíssimas reflexões, retira-se pelo menos uma conclusão: a da profunda influência do Mar na Língua, na Literatura e na Cultura portuguesas. Costeiro ou oceânico, o Mar faz parte do nosso devir histórico, está-nos no sangue. É um dos traços da nossa idiossincrasia como povo de vocação atlântica ou marítima. Por isso, numa das suas últimas intervenções públicas, Vergílio Ferreira fez esta bela afirmação: Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar.
Do desbravado mar português, fica-nos a nostalgia. Portugal é, de novo, confinado à sua dimensão terrestre. Este regresso a casa ou ao cais, é precisamente um dos simbólicos temas que tem inspirado muita da atual Literatura portuguesa: depois do passado marítimo e colonial, Portugal interroga-se sobre o destino ou rumo como navio-nação.
Da realização de Expo'98, [no] Ano Internacional dos Oceanos e da comemoração dos 500 anos dos Descobrimentos, creio que ficou um saudável sentimento de autoestima, perante o nosso passado histórico. É tempo de nos libertarmos de sentimentos derrotistas e fatalistas. É tempo de acabarmos com despropositados complexos de inferioridade. É tempo de encarar o futuro com a confiança das grandes realizações do passado. Há 500 anos, estávamos envolvidos num empolgante sonho de expansão. Embarcámos num projeto verdadeiramente galvanizador. E hoje, que ideia ou projeto nos move? Que utopia ou sonho nos mobiliza como povo?
Desta série de sete brevíssimas reflexões, retira-se pelo menos uma conclusão: a da profunda influência do Mar na Língua, na Literatura e na Cultura portuguesas. Costeiro ou oceânico, o Mar faz parte do nosso devir histórico, está-nos no sangue. É um dos traços da nossa idiossincrasia como povo de vocação atlântica ou marítima. Por isso, numa das suas últimas intervenções públicas, Vergílio Ferreira fez esta bela afirmação: Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar.
(Estes sete breves textos foram
publicados, mensalmente, na revista do Mensageiro (Braga, Ed. A. O., de Maio a
Dezembro de 1998), acompanhando a Exposição Universal de Lisboa, Expo'98.)
J. Cândido Martins (Universidade Católica Portuguesa – Braga)
http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/letras/candid02.htm
J. Cândido Martins (Universidade Católica Portuguesa – Braga)
http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/letras/candid02.htm
dgpm.mam.gov.pt
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