Há muito, muito tempo atrás,
Gustavo, um jovem alto e robusto que vinha de uma família muito pobre dos
arredores do sul da Ásia (onde agora se encontra a Malásia), foi passear pela
floresta densa. Este jovem era muito inteligente e aventureiro pelo que era o
único da sua grande vila que era destemido o suficiente para ir à floresta
sozinho, no meio da noite.
Muitos amigos avisaram-no que não era seguro andar por
ali àquelas horas; ele, corajoso, não se importava. Era cauteloso o suficiente para não
ser cercado por animais selvagens, mas, naquela noite, tudo lhe parecia
diferente.
Ouviu uma voz feminina por entre as árvores, tão
melodiosa como uma canção de embalar. Hipnotizado por aquele som oriundo de uma
clareira, seguiu-o. Que seria?
Curioso, chegou-se mais perto e começou por se
aperceber de algumas das palavras e de uma cantiga que o assustou pela forma como
era cantada:
-Um...dois...três...quatro...um...dois...três...quatro...
Rapidamente, a voz que momentos atrás
era glamorosa e acalmante tornou-se num pesadelo, mas o rapaz estava mais
intrigado do que com medo pelo que saiu do seu esconderijo.
A clareira era um espaço amplo e, no centro, estava
uma rocha com uma rapariga pálida, de cabelos doirados e muito bonita, sentada
a mexer no cabelo e a cantar, o que parecia a música da insanidade.
Gustavo ficou espantado, mas ele não
era homem de medos e aproximou-se:
-Quem és tu?
A rapariga, apanhada desprevenida,
assustou-se, mas respondeu à questão:
-O meu nome é Clara e sou filha do
Capitão Noscada, um marinheiro português que se faz às águas sempre que
pode...-murmurou Clara
-E porque estás aqui?-questionou Gustavo.
-É que, um dia, o meu pai e eu
embarcámos num navio rumo ao leste da Ásia a fim de transportar mercadorias e
fazer algum comércio com os habitantes, mas, para lá chegarmos, passámos por
entre estas ilhas; fomos puxados para o meio de um remoinho de água e o
barco naufragou. Agora, assombro estas terras em busca de companhia...-explicou
ela.
-Ent...ent...tão tu é...és um
fant...fant...FANTASMA!-gritou, assustado.
-Pode dizer -se que sim, mas só
estou aqui porque o meu corpo nunca chegou a vir a terra. A minha alma está
aprisionada debaixo de água e preciso de ajuda porque, se não me soltarem das
profundezas do mar, nunca irei para o céu nem voltarei a ver a minha família.-
disse a choramingar.
-Não te preocupes! Eu próprio
me encarregarei de tentar encontrar o teu navio e devolver o teu corpo à terra,
para que possas dormir em paz.
Assim, Gustavo cumpriu a
promessa. Começou a construir três barcos com os seus amigos onde cada um
seguiria o seu destino: o primeiro iria pelo Mar de Andaman, o segundo
pelo Mar de Java, o terceiro pelo Mar da China.
Como era pobre, não podia
comprar materiais, mas, três meses depois de andar a colher árvores e a
transformá-las em barcos, estava pronto para a expedição pelos mares.
Despediu-se da família e foi...
Gustavo foi no primeiro barco;
nos outros, iam os amigos e colegas. Desoladamente, ninguém encontrou o tal
navio, mas, ao contrário dos outros barcos que regressaram a terra, Gustavo e o
seu barco nunca voltaram...
Muitas pessoas dizem que ele
encontrou Clara e com ela foi para a Terra Prometida.
João Coimbra
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