domingo, 23 de fevereiro de 2014

A alma perdida


       

            Há muito, muito tempo atrás, Gustavo, um jovem alto e robusto que vinha de uma família muito pobre dos arredores do sul da Ásia (onde agora se encontra a Malásia), foi passear pela floresta densa. Este jovem era muito inteligente e aventureiro pelo que era o único da sua grande vila que era destemido o suficiente para ir à floresta sozinho, no meio da noite.
Muitos amigos avisaram-no que não era seguro andar por ali àquelas horas; ele, corajoso, não se importava. Era cauteloso o suficiente para não ser cercado por animais selvagens, mas, naquela noite, tudo lhe parecia diferente.
Ouviu uma voz feminina por entre as árvores, tão melodiosa como uma canção de embalar. Hipnotizado por aquele som oriundo de uma clareira, seguiu-o. Que seria?
           Curioso, chegou-se mais perto e começou por se aperceber de algumas das palavras e de uma cantiga que o assustou pela forma como era cantada:
         -Um...dois...três...quatro...um...dois...três...quatro...
             Rapidamente, a voz que momentos atrás era glamorosa e acalmante tornou-se num pesadelo, mas o rapaz estava mais intrigado do que com medo pelo que saiu do seu esconderijo.
A clareira era um espaço amplo e, no centro, estava uma rocha com uma rapariga pálida, de cabelos doirados e muito bonita, sentada a mexer no cabelo e a cantar, o que parecia a música da insanidade.
              Gustavo ficou espantado, mas ele não era homem de medos e aproximou-se:
              -Quem és tu?
              A rapariga, apanhada desprevenida, assustou-se, mas respondeu à questão:
              -O meu nome é Clara e sou filha do Capitão Noscada, um marinheiro português que se faz às águas sempre que pode...-murmurou Clara
                          -E porque estás aqui?-questionou  Gustavo.
              -É que, um dia, o meu pai e eu embarcámos num navio rumo ao leste da Ásia a fim de transportar mercadorias e fazer algum comércio com os habitantes, mas, para lá chegarmos, passámos por entre estas ilhas; fomos puxados para o meio de um remoinho de água e o  barco naufragou. Agora, assombro estas terras em busca de companhia...-explicou ela.
               -Ent...ent...tão tu é...és um fant...fant...FANTASMA!-gritou, assustado.
               -Pode dizer -se que sim, mas só estou aqui porque o meu corpo nunca chegou a vir a terra. A minha alma está aprisionada debaixo de água e preciso de ajuda porque, se não me soltarem das profundezas do mar, nunca irei para o céu nem voltarei a ver a minha família.- disse a choramingar.
               -Não te preocupes! Eu próprio me encarregarei de tentar encontrar o teu navio e devolver o teu corpo à terra, para que possas dormir em paz.
               Assim, Gustavo cumpriu a promessa. Começou a construir três barcos com os seus amigos onde cada um seguiria o seu destino: o primeiro iria pelo Mar de Andaman, o segundo  pelo Mar de Java, o terceiro  pelo Mar da China.
               Como era pobre, não podia comprar materiais, mas, três meses depois de andar a colher árvores e a transformá-las em barcos, estava pronto para a expedição pelos mares. Despediu-se da família e foi...
               Gustavo foi no primeiro barco; nos outros, iam os amigos e colegas. Desoladamente, ninguém encontrou o tal navio, mas, ao contrário dos outros barcos que regressaram a terra, Gustavo e o seu barco nunca voltaram...
                Muitas pessoas dizem que ele encontrou Clara e com ela foi para a Terra Prometida.

João Coimbra

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